É possível substituir o material de uma peça de aço para ferro fundido sem interferir na durabilidade e ainda reduzir o custo de produção?

Esse artigo é composto das seguintes seções:

    1. O que são os ferros fundidos;
    2. Ferro Cinzento;
    3. Ferro Nodular;
    4. Ferro Fundido Vermicular;
    5. Conclusão.

1. O que são os ferros fundidos

Os ferros fundidos são ligas ferrosas com percentual de carbono em sua composição acima de 2,14% do peso do material. A maioria deles possuem de 3,0 a 4,5% de carbono e um ponto de fusão entre 1150 e 1300°C, menor que o dos aços.

O alto teor de carbono torna os ferros fundidos materiais frágeis quando comparados aos aços, dificultando sua conformação mecânica, por exemplo. Esse fato, aliado à facilidade de fundir o material, faz com que a fundição seja o processo de fabricação preferido quando se trata dessas ligas.

Nos ferros fundidos o carbono é encontrado como grafita. O surgimento desse composto depende da composição do material e da taxa de resfriamento da peça final, influenciando na microestrutura e nas propriedades mecânicas do material.

Essas ligas ferrosas são classificadas em 5 tipos principais, de acordo com sua microestrutura. Nesse artigo trataremos dos ferros cinzentos, nodulares e vermiculares.

2. Ferro Cinzento

Microestrutura

Teor de carbono: 2,5 a 4,0%;

Teor de silício: 1,0 a 3,0%;

Flocos de grafita envolvidos de uma matriz de ferrita alfa ou perlita;

O sufixo cinzento é dado à esse ferro, pois na maioria dos casos a peça é fraturada justamente nos flocos, revelando uma secção acinzentada do material;

Prós

    1. Boa resistência ao desgaste;
    2. Possui grande resistência e ductilidade à compressão, por isso é bastante usado para absorção de energia vibracional, podendo ser aplicado em bases e sapatas de máquinas e equipamentos pesados, como tornos e centros de usinagem, por exemplo;
    3. Possuem excelente fluidez na temperatura de fundição, possibilitando a fundição de peças complexas;
    4. Baixa contração percentual da peça fundida;
    5. Entre os materiais metálicos eles são um dos mais acessíveis.

Contras

    1. As extremidades dos flocos são delgadas e pontiagudas, formando pontos de acúmulo de tensão quando o material é solicitado por tração , sendo favoráveis para o início de uma trinca;
    2. Deve-se atentar aos esforços gerados no processo de acabamento. Durante o brochamento de canais internos, por exemplo, é possível fraturar a peça sem um reforço específico.

Exemplos e aplicações

SAE G1800: Peças complexas de baixa solicitação mecânica como protetores, suportes ou carcaças de equipamentos leves;

SAE  G2500: Caixas de transmissão, placas de embreagens, cabeçotes de cilindro, pistões e válvulas de baixa pressão;

SAE G4000: peças de motores diesel, carcaça de turbinas automotivas, cilindros e pistões.

3. Ferro Nodular

Microestrutura

Teor de carbono: 3,40 a 3,80%;

Teor de silício: 2,10 a 2,80%;

Teor de magnésio: 0,040 a 0,060%;

Adicionando magnésio e/ou cério ao ferro cinzento antes da fundição a grafita surge na forma de nódulos em uma matriz perlítica, dando origem ao ferro fundido nodular.

Prós

    1. Mais resistente à tração e ao impacto que a maioria dos ferros;
    2. Propriedade mecânica de resistência à tração que se assemelha ao aço SAE 1020 e ao ASTM A36;
    3. Bastante dúcteis, podem apresentar de 10 a 20% de alongamento antes da ruptura;

Contras

    1. Possui uma contração percentual maior que do ferro fundido cinzento;
    2. Relativamente mais caro devido à precisão dos elementos de liga.

Exemplos e aplicações

NBR FE 38017: Peças submetidas à pressão, como corpos de válvulas e de bombas, mecanismos de direção, flanges;

NBR FE 42012: Peças para máquinas submetidas a cargas de choque e fadiga, discos de freio; 

NBR FE 50007: Virabrequins e engrenagens; 

NBR FE 60003: Engrenagens de alta resistência, componentes de máquinas, peças automotivas;

NBR FE 70002: Engrenagens de alta resistência, componentes de máquinas, peças automotivas 

NBR FE 80002: Pinhões, engrenagens, trilhos

4. Ferro  Fundido Vermicular

Microestrutura

Teor de carbono: 3,1 a 4,0%;

Teor de silício: 2,7 a 3,0%;

Teor de magnésio: 0,010 a 0,012%

Possui uma microestrutura intermediária entre o ferro cinzento e o nodular: apresenta mais de 80% de grafita em forma de estrias grossas (parecida com os flocos, mas sem arestas afiadas) e menos de 20% em nódulos.

Prós

    1. Maior condutividade térmica;
    2. Mais resistentes a choques térmicos;
    3. Menor oxidação em altas temperaturas;
    4. Maior resistência à tração que os ferros fundidos cinzentos, comparável com os nodulares.

Contras

    1. Menos acessíveis devido ao extremo controle dos elementos de liga como o magnésio e o cério;
    2. Ductilidade menor que dos ferros fundidos dúcteis.

Exemplos e aplicações

ASTM A842: Discos de freio para trens de alta velocidade, blocos de motores diesel modernos, coletores de escape e lingoteiras

5. Conclusão

Retomando a questão inicial: é possível substituir o material de uma peça de aço para ferro fundido sem interferir na durabilidade e ainda reduzir o custo de produção?

Sim, essa substituição é tecnicamente viável. Os ferros podem ser facilmente fundidos e são capazes de tomar geometrias complexas, muitas vezes impossíveis de serem usinadas em centros de 3 eixos, e ainda possuir resistência mecânica compatível com inúmeras aplicações. 

Para obter a peça final fundida é necessário uma ferramenta, que pode variar dependendo do processo de fabricação. No geral, os métodos que utilizam moldes colapsáveis são os mais acessíveis. Para isso é necessário ter um modelo que pode ser fabricado em um centro de usinagem, por exemplo.

Muitas vezes é possível projetar o modelo de tal modo que a peça fundida não necessite de processos de acabamento com usinagem. Nos piores casos, para finalizá-la, basta uma furadeira de bancada ou um torno. Essa fator pode reduzir o custo da peça final e então viabilizar o produto.

Referências

Callister Jr., W.D., Ciência e Engenharia dos Materiais, uma Introdução, 7ª Edição, Ed. Guanabara, 2008.

A. ROULA, G.A. KOSNIKOV. Manganese distribution and effect on graphite shape in advanced cast irons. Materials Letters 62, 2008.

CHIAVERINI, V. “Aços e ferros fundidos”. 6ª ed., São Paulo: Associação Brasileira de Metalurgia e Materiais, 1990.